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Catadora de materiais recicláveis ganha bolsa integral em universidade

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7/05/12 1:53 PM

Bernard Viegas

“Com muito amor e dedicação todos podem alcançar seus objetivos”. Essas são as palavras que resumem o sentimento da catadora de materiais recicláveis Elisabete Mendes, que aos 32 anos conseguiu concluir o Ensino Médio, ser aprovada no ENEM e ainda conquistar uma bolsa de estudos integral para o curso de Gestão Ambiental na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

Apesar de ter interrompido os estudos na infância, após terminar a 6ª série do ensino fundamental, ela voltou à estudar 15 anos depois. Hoje, Elisabete é motivo de orgulho entre amigos e família e por toda equipe da Gerência de Educação Ambiental do Instituto Estadual do Ambiente, da qual faz parte.

Elizabete decidiu que era hora de voltar a estudar depois de muita insistência dos colegas de trabalho e familiares.

- Foram muitos anos longe dos livros. Eu estava totalmente desatualizada, mas meus colegas de trabalho e principalmente minha chefe insistiam pra eu estudar. A minha família também deu uma força, e com tanta gente me apoiando resolvi ir à luta – relembra a caloura

Com o incentivo de todos, Bete se matriculou em um curso supletivo. Durante dois anos se dedicou dia e noite para conseguir concluir o ensino médio.

- Eu estudava em dois turnos, era muito puxado. Comecei estudando à tarde, mas ficou complicado de conciliar com o trabalho e tive que transferir pra noite. Fora isso, eu ainda estudava sábado o dia inteiro. Foram dois anos de muita luta, porque eu ficava dividida entre trabalho, estudo e família e nem sempre era fácil conciliar.

Recém-formada, Bete resolveu fazer a prova do ENEM para testar os conhecimentos adquiridos ao longo do curso. Sem muitas pretensões em ser aprovada em alguma instituição, a catadora iniciou uma pequena preparação de estudos.

- Eu não tinha nenhuma expectativa em passar no ENEM, fui fazer a prova só pra ter noção do que eu havia aprendido e em qual nível eu estava. Fiquei muito emocionada quando soube que havia passado, não acreditei – explicou

Surpresa com a aprovação, Elizabete precisou se inscrever no PROUNI, programa que oferece bolsa de estudos para instituições de ensino superior privada. Com as notas obtidas no ENEM, ela conseguiu além da bolsa de 100% na Estácio de Sá, mais uma de 50% na Universidade Veiga de Almeida, na Tijuca, para o curso de Serviço Social.

De catador para catador

Elisabete Mendes faz parte da equipe do Programa Coleta Seletiva Solidária do Estado do Rio de Janeiro, que visa a implantação da coleta seletiva em todos os municípios do Rio. Ela integra o “Eixo Catadores” do programa  busca a valorização e inclusão dos catadores de materiais recicláveis através do incentivo ao seu protagonismo e emancipação.

Na Gerência de Educação Ambiental a nova universitária atua diretamente com catadores de diversos municípios do estado através do método chamado “de catador para catador”. Este visa facilitar a comunicação e interação entre as partes interessadas no processo. De acordo com Elizabete, o fato de ela ser catadora é fundamental para o sucesso do seu trabalho. Segundo ela, essa metodologia é eficiente porque os catadores se sentem mais à vontade quando a abordagem é feita por alguém que conhece de perto sua realidade.

- Os catadores às vezes tem dificuldade para entender o que queremos quando vamos visita-los. Pelo fato do programa contar com dois catadores formadores, esse processo fica muito mais fácil de ser resolvido. Eles sabem que nós passamos pelas mesmas situações que eles, e por isso se abrem mais facilmente para um diálogo – explica.

O trabalho realizado por Elisabete tem como objetivo apoiar a organização dos catadores em grupo, através de associações ou cooperativas e capacitá-los para o trabalho coletivo em um galpão de triagem de materiais recicláveis. Segundo ela, o fato de ter passado para uma universidade contribuiu para melhorar essa relação com os demais catadores e hoje é motivo de orgulho entre a classe.

- É muito importante que os catadores tenham confiança no meu trabalho. Desejo que todos os catadores voltem a estudar e que através do meu esforço eles possam ter força de vontade para correr atrás dos seus sonhos. Nunca é tarde pra estudar e não tem idade certa para isso. Os catadores sofrem muito preconceito até hoje por não terem estudo e pela própria profissão que exercem. Mas isso não é vergonha pra ninguém, todos nós somos capazes – desabafou.

A catadora agora espera ansiosa pelo início das aulas, que começam no segundo semestre do ano. Enquanto esse dia não chega, ela curte a boa fase com a família e amigos e sonha com dias ainda melhores na profissão.